Em março de 1995 Marcia Taborda se encontra com o violonista Raphael Rabello para realizar uma entrevista que seria utilizada como fonte para sua dissertação de mestrado intitulada Dino Sete Cordas e o acompanhamento de violão na música popular brasileira.
Passados dois meses... esse grande artista e referência para todos que amam o violão, se foi.
Coisas do mundo...
como poeticamente nos canta Paulinho da Viola..
O CONTEXTO:
Em 1990 fui aprovada para o curso de mestrado em música na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde fui orientada pelo violonista Turíbio Santos.
Naquela época era uma formação bastante mais exigente do que a atual, constando de quatro anos de curso, várias disciplinas e três recitais a serem apresentados. Não havia como hoje a necessidade de submeter previamente o projeto de pesquisa a ser desenvolvido. Após aproximadamente dois anos de estudos eu ainda não havia encontrado o tema do trabalho e pensava me dedicar à obra violonística de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, por quem tinha (e tenho) grande admiração.
Um dia ouvi o disco Raphael Rabello e Dino Sete Cordas, especialmente a faixa Conversa de Botequim em que Dino, em sua primeira aparição, demonstra a riqueza, exuberância e genialidade de sua linguagem musical e violonística.
Tive ali um deslumbramento e a certeza que dedicaria a ele o meu mestrado.
Naquele momento, eu tinha 30 anos de idade e completo desconhecimento da história da música popular brasileira, embora fosse fã e frequentasse shows dos grandes artistas da então chamada MPB.
Fui procurá-lo e passei a ter aulas com ele na Casa Oliveira situada na Rua da Carioca, região que guarda muito da memória e da cultura do Rio de Janeiro.
Nossa relação foi de grande simpatia e amizade; as aulas eram verdadeiros encontros musicais... tocava para ele, e com ele...
talvez surpreso por ver uma mulher dedicando-se ao violão, sempre que chegava alguém dizia.. veja como toca essa menina ... e me acompanhava em peças de Ernesto Nazareth e outros autores que eu soubesse executar.
Anotava em um caderno acompanhamentos de choros conhecidos e ainda com enorme paciência, me ensinava solos de violão como Praça Sete de sua autoria, Choro Triste de Aymoré e Malandro descendo o morro, obra potente do quase desconhecido João dos Santos, além de me apresentar canções compostas por ele... eram encontros muito prazerosos. Às vezes almoçávamos juntos.
Paralelamente ia visitá-lo em sua casa na Rua Torres Homem em Vila Isabel,
onde gravava entrevistas com ele sempre acompanhadas por sua simpatiquíssima esposa, Dona Rosa.
Em 1995, (eu havia suspendido o curso por um ano por conta de viagens internacionais), eu estava muito em cima do prazo final de entrega do trabalho que até então apresentava uma enorme lacuna, a ausência de Raphael Rabello.. numa manhã do mês de março, toca o telefone em minha casa, onde uma voz grossa, encorpada, fala:
Marcia, o Turíbio me falou que você está querendo falar comigo... né?
Aqui é Raphael Rabello!
Todos que como eu tem profunda admiração por Raphael podem imaginar o susto, o impacto que senti..
E assim fui visitá-lo no apart hotel em que estava morando no bairro carioca do Leblon.. o que se passou naqueles trinta minutos de conversa vocês poderão ouvir...
Participo como uma entrevistadora absolutamente inexperiente e sem nenhuma metodologia estabelecida.
Importante mencionar... quando cheguei, antes de bater à porta.. ele estava tocando violão.. durante a entrevista.. ansioso por tocar violão.. e quando saí, o elevador demorou a chegar, Raphael apaixonadamente tocava violão..
Estava tudo ali, explícito.. o amor, a mania.
O violão era tudo !
A DISSERTAÇÃO:
A dissertação de mestrado Dino Sete Cordas e o acompanhamento de violão na música popular brasileira defendida na Escola de Música da UFRJ em julho de 1995, entrou para a bibliografia brasileira como o primeiro trabalho dedicado a Dino Sete Cordas.
Consta de quatro capítulos: o primeiro, um esboço da trajetória histórica do violão, o segundo dedicado ao surgimento e desenvolvimento dos conjuntos regionais, no terceiro capítulo apresenta-se o perfil biográfico de Horondino José da Silva, o Dino Sete Cordas e no último foi elaborada a análise musical de acompanhamentos do violão brasileiro apresentados cronologicamente e transcritos de gravações originais a partir do ano de 1902, quando se estabeleceu a indústria fonográfica no Brasil.
Tentou-se compreender como o acompanhamento de violão se estabeleceu focalizando um longo período da música popular brasileira: as primeiras gravações, Dino no Regional de Benedito Lacerda ainda executando um violão de seis cordas (1937) e Dino a partir da atividade no Regional de Canhoto quando passou a utilizar um violão de sete cordas em suas apresentações.
The interview’s backgound:
I was approved, in 1990, for the Master of Music course at the UFRJ, where I was mentored by the guitarist Turíbio Santos. At that time, it was a much more demanding formation than the current one, consisting of a four-year course, several subjects and the performance of three recitals. There was no need - as today - to previously submit a research project. After about two years of studies, I had not yet found a theme for my dissertation and thought to dedicate myself to the guitar work of Aníbal Augusto Sardinha, known as Garoto, for whom I had (and I have) great admiration.
One day, when I heard the album Raphael Rabello and Dino Sete Cordas, especially the track Conversa de Botequim, I was awe-struck, it delighted me, it puzzled me! Dino, in his very first appearance, demonstrates the richness, exuberance and genius of his musical and guitar language. I made my decision: I would dedicate my master's degree to him.
I I was then 30 years old and completely unaware of the history of Brazilian popular music, although a fan and going to shows of the great artists of our so-called Brazilian popular music (MPB).
I looked for him and we started having classes at Casa Oliveira, at Rua da Carioca, a region that holds much of Rio de Janeiro's memory and culture. Our relationship was of deep understanding and friendship, the classes were true musical meetings. I played for him and with him.
Perhaps surprised to see a woman dedicating herself to the guitar, whenever someone arrived, he would say: “Look how this girl plays,” and accompanied me on Ernesto Nazareth and other composers I knew how to play.
He wrote in notebook accompaniments of known choros and with utmost patience, taught me guitar solos such as Praça Sete (one of his compositions), Aymoré’s Choro Triste and Malandro descendo o morro, an influential and powerful work by the unknown João dos Santos, besides introducing me to songs composed by him. These were very pleasant get-togethers.
Sometimes we had lunch together.
At the same time, I visited him at his home on Rua Torres Homem, in Vila Isabel, where I recorded interviews with him, always followed by his very friendly wife, Dona Rosa.
In 1995 (I had suspended the course for a year because of international trips), I was way over the deadline to hand in the work, which so far had a huge gap - the absence of Raphael Rabello. One morning in March, the phone rings at my house, and a thick, full-bodied voice says:
Marcia, Turíbio told me that you want to talk to me, right?
This is Raphael Rabello!
Everyone, who like myself has a deep admiration for Raphael, can imagine the shock, the impact I felt.
And, so I went to visit him at the aparthotel where he lived at in the carioca neighborhood of Leblon. You will read next what happened in those thirty minutes of conversation. I participate as a totally inexperienced interviewer with no established methodology.
It is worthwhile mentioning: when I arrived, before knocking on the door he was playing guitar, during the interview he was eager to play guitar and when I left, the elevator was slow to arrive, as I waited, he passionately played the guitar.
It was all there, explicitly: the passion, the love.
The guitar was everything!
It was March 1995.
Two months later, this great artist and reference for everyone who loves the guitar, passed away.